Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo .
A primeira vez que ouvi isso em algum lugar achei fantástico.
Simples e objetivo. Pelo menos falar é.
Fazer, hum, tão complicado!!!
Manter a mente quieta é tarefa das mais complicadas, ela ta sempre matutando idéias, fazendo planos, se frustrando, se alegrando, estressada, calma, irritada, suave, uma bomba.
Cheia de contradições, medos, angústias, desejos... ah... quantos desejos infinitos e eternos, volúveis e inconstantes.
A espinha ereta. A minha é uma piada, quase sempre curvada, arrastada, mal posicionada. Preguiça? Apatia? Cansaço? Moleza? Não, não. Experimente levar uns 13 quilos de livros nas costas durante mais ou menos 7 anos.
Escola cruel a minha. Sem armários, sem livros leves. Livros que pareciam querer imitar a bíblia sagrada. Em vez de catequizar faziam imbecilizar, mas isso é assunto pra outro dia.
Coração tranqüilo. Me digam como é possível , após acrescentar Mário Quintana, pitadas de Drummond e Vinícius e rechear com Jobim. Impossível.
Coração adolescente? Não. Esperançoso? Sim.
Daqueles que crêem em alma gêmea, cavalo branco e príncipe encantado? Não, não.
Desses aí não. O meu prefere um amor hippie. Sem frescuras. Pessoas politicamente corretas, engravatadas e prendadas não fazem meu estilo.
Pessoas sensíveis fazem meu estilo. Hum, mas anda tão difícil.
Por isso e muito mais que digo que manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo é tarefa das mais difíceis.
sábado, 20 de dezembro de 2008
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Acaba
Acaba
Olha só, lá estava eu, maldizendo-me da sorte, queixando-me dos achaques do coração, rogando contra os céus, espraguejando, chorando feito Madalena arrependida, jogada na vala dos esquecidos, perdida no beco dos desconsolados, chorando miséria, brigando com o mundo, fingindo desdém, catando vintém, maltratando até neném.
Olha só, lá estava eu odiando você, rasgando os versos, cutucando a ferida, fingindo não encontrar saída. Olha só, lá estava eu diante da porta sem ver a passagem, pensando ser vertigem ou viagem ou miragem aquilo que era verdade. Olha só eu ali, verde, verde, principiante, iniciante, cheia de uma intensidade ultrajante, delirante, lancinante. Extremista até não poder mais, achando que o sofrimento só tinha o que crescer, retroceder jamais.
Olha só, lá estava eu contando os dias, meses e anos, olhando a lua cheia, querendo tocar piano, tomando um scotch e dizendo “tomara que ele volte”. Olha só quanta confusão, eu lá achando que era pra sempre, que nunca ia acabar. Olha só eu lá, me vejo pedindo pro sentimento não acabar, orando pra sobrar uma nesga, um resquício, um rascunho, um tiquinho, um rabisco que fosse, pelo menos uma letra, um “A” do amo.
Ligeiramente vejo-me lá, e hoje consciente e não tanto displicente ou imprudente. Nem tanto adolescente, nem combalida por desejos frementes. Hoje vejo e constato a mais pura e mais simples verdade, a mais pueril e brejeira, a verdade primeira, incontestável e insofismável: acaba.
Olha só, lá estava eu, maldizendo-me da sorte, queixando-me dos achaques do coração, rogando contra os céus, espraguejando, chorando feito Madalena arrependida, jogada na vala dos esquecidos, perdida no beco dos desconsolados, chorando miséria, brigando com o mundo, fingindo desdém, catando vintém, maltratando até neném.
Olha só, lá estava eu odiando você, rasgando os versos, cutucando a ferida, fingindo não encontrar saída. Olha só, lá estava eu diante da porta sem ver a passagem, pensando ser vertigem ou viagem ou miragem aquilo que era verdade. Olha só eu ali, verde, verde, principiante, iniciante, cheia de uma intensidade ultrajante, delirante, lancinante. Extremista até não poder mais, achando que o sofrimento só tinha o que crescer, retroceder jamais.
Olha só, lá estava eu contando os dias, meses e anos, olhando a lua cheia, querendo tocar piano, tomando um scotch e dizendo “tomara que ele volte”. Olha só quanta confusão, eu lá achando que era pra sempre, que nunca ia acabar. Olha só eu lá, me vejo pedindo pro sentimento não acabar, orando pra sobrar uma nesga, um resquício, um rascunho, um tiquinho, um rabisco que fosse, pelo menos uma letra, um “A” do amo.
Ligeiramente vejo-me lá, e hoje consciente e não tanto displicente ou imprudente. Nem tanto adolescente, nem combalida por desejos frementes. Hoje vejo e constato a mais pura e mais simples verdade, a mais pueril e brejeira, a verdade primeira, incontestável e insofismável: acaba.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Nó desfeito
Não existe nó
Que um dia não se desfaça
é só deixar o tempo escorrer
E uma ponta pela outra passa
Não precisam-se de tesouras
Muito menos de facas
deixe a vida seu trabalho fazer
Que o nó desentrelaça
As partes saem intactas
Prontas pra se unirem em novos laços
Mas é preciso calma e técnica
Pra de novo não perder o compasso
Que um dia não se desfaça
é só deixar o tempo escorrer
E uma ponta pela outra passa
Não precisam-se de tesouras
Muito menos de facas
deixe a vida seu trabalho fazer
Que o nó desentrelaça
As partes saem intactas
Prontas pra se unirem em novos laços
Mas é preciso calma e técnica
Pra de novo não perder o compasso
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Começou assim...

As aspas já não me serviam mais
Nem que fossem as de Neruda
Era preciso “algo meu no mundo”
Não, acho que não passa por aí
Tinha muitos outros “algos” meus por aí
Tinham as experiências na cozinha
Tinha meu jeito único de descascar abacaxis
Meu jeito único de fazer cafuné
Tinha meu delicioso pudim de leite
Então o que faltava?
Boa pergunta. O que leva um sujeito a escrever tanto? O que leva um sujeito a perder tanto tempo em busca de versos perfeitos, da crônica irônica, do conto que foi parecendo que não ia e acabou indo? O que leva um sujeito a querer rimar lé com limão, a preferir uma página em branco a ver televisão?
Não, também não passa pela idéia do livro, do filho e da árvore. Meus escritos não ficarão para a posteridade, não serão best-sellers, nem perpetuaram minha espécie, quem dirá meu ponto de vista? Não quero vender minhas idéias, não me parecem suficientemente atraentes para serem vendidas.
Simples: escrito nenhum me bastava.
Escrevo porque cansei de me colocar entre aspas, me cansei do discurso colchinha de retalhos, pegando trechos de Drummond e Quintana, de Machado e Amado.
Cansei-me de ver aspas de falsos escritores tilintando nas minhas vistas. Fazendo troça de mim. Se eles vendem baboseiras porque não escrever as minhas próprias?
Cansei de ser a voz dos outros. Cansei de endossar, assinar embaixo, de fazer das palavras alheias as minhas próprias, cansei de plágio, de responder perguntas com frases dos outros sem ter que gastar um segundo e ter que pensar.
Foi isso. Simples assim, um dia resolvi pensar, comecei a escrever e nunca mais parei.
sábado, 15 de novembro de 2008
Não reclames

Chacoalhou bem
Pediu pra o coração bater pausadamente
Quase lhe implorou pra que fosse menos buliçoso
Mais sereno
Mais ameno
O coração, acostumado aos grandes reveses
Músculo bem treinado, habituado às tormentas
Às águas turvas e geladas
Argumentou que não dava
Que era cavalo puro sangue, que era coração puro sangue
Com veias pulsantes e batimentos galopantes
Resignou-se então com fé
Pedindo aos céus que desse força ao espírito
Que diferente do coração era frágil e quebradiço
E não agüentava tanto bulício
Um dia mais tarde admirou-se
Sentiu o coração calmo
Batendo compassadamente
E assustou-se
Viu-o saborear com sapiência o gosto de cada instante
Sem movimentos lancinantes
Viu-o tocar não como samba, mas como bossa nova
Viu-o como prosa e não como poesia
Viu-o como sempre pedira
Sentiu-se feliz
Rodopiante
Sem o lamento de entregar-se com fervor a cada novo amante
Vivia um passo após o outro
Sem espasmos de euforia
Sem lagrimas de sofrimento alternadas por enchurradas de alegria
Mas logo logo novamente admirou-se
Logo da calmaria cansou-se
Sentiu falta do coração buliçoso
Começou a encher-se de tanto sentimento insosso
Implorou a volta do coração puro sangue
Que aquele pangaré não dava mais pé
Sentia falta dos galopes
Rogou aos céus com toda sua fé
O coração então atendeu as preces
Mas disse logo em seguida
Não reclames mais da sorte
Sou o que tens de melhor na vida
sábado, 8 de novembro de 2008
Enquanto isso no terminal...

Enquanto isso no Terminal do Siqueira, mais especificamente no busão Siqueira Papicu Aeroporto...
- Senhoras e senhores passageiros, me desculpe se atrapalho o silencio da viagem de vocês...
Puta que pariu. Lá vem esse pivete de novo. Como se não bastasse o salário miserável, a bunda pregada na cadeira o dia todo, ter que arranjar troco pra cédula de 50...
- Ajude esse pobre cristão a sustentar seus irmãos e sua mãe...
Agora chega
- Ei pivete. Não pode mais vender jujuba no ônibus não.
- E porque?
- Porque o dono proibiu
- E porque?
- Porque os donos das lojas do terminal reclamaram. Concorrência pras jujubas deles.
E lá vai o garoto com as jujubas na mão.
No dia seguinte...
- Senhoras e senhores passageiros, me desculpe se atrapalho o silencio d viagem de vocês...
De novo. Mas só diz isso. Eu já num disse pra esse filho da mãe que...
- Tem de tudo. Adesivo, caneta, lápis, borracha...
Esperto o pirralho. Arranjou mais bugiganga pra vender.
- Ei menino. Desce com as tralhas.
- Mas num era só a jujuba que tava proibido
- Me enganei. Tudo que seja vendido nos boxes dos terminais ta proibido.
Lá desce o moleque pensando. O que que eu vou vender agora?
No dia seguinte...
- Senhoras e senhores passageiros me desculpe se atrapalho o silencio da viagem de vocês
Minha nossa, pivete insistente
- Ô menino, eu num te disse que não dava pra vender mais.
- Ow tio, nunca vi loja de terminal vender borracha pra panela de pressão. É só um real. Vai querer?
sábado, 1 de novembro de 2008
Poesia nunca morre

A poesia morreu, mas esqueceram de avisar o poeta. Todos os dias ele continuava a versar, a rimar. Sempre com sua folha de papel e caneta. Apesar de todo o aparato tecnológico daqueles tempos. Era o único a possuir livros, muito raros naquele tempo de muita correria e tecnologia. Tudo era lido nos smartphones, palmtops, laptops e outras coisas que ele nem sabia o nome. Havia em outra época publicado um livro de poemas e contos, mas nada vendeu porque ninguém já nem ligava pros escritos de ninguém. A língua estava mudada, os diálogos com palavras cada vez mais reduzidas e incompreensíveis. Ficava horas escutando conversas na rua sem entender nada. Não via mais arte. Não haviam exposições, ou shows. Aqui ou acolá os jovens se reuniam em um ambiente escuro, fumacento e começavam a chacoalhar-se ao som de barulhos estridentes. Não via ninguém mais olhar o pôr-do-sol. Todos trabalhavam até tarde e a atmosfera estava cada vez mais carregada. No fim de semana não havia mais praia, caranguejo.
Só ele não via que a poesia morrera, que a poesia de cada dia, do amanhecer e das flores a florescer. A poesia do jogo de bola na rua, a poesia da lua cheia. E ele continuava a rimar, lembrava de um tempo distante. E riscava na folha:
Poesia nuca morre
Enquanto bater um coração
A poesia é troço forte
Traz alvoroço e mansidão
A tecnologia tudo engole
Tragou os livros e os cantores
Mas sempre haverá um poeta
A falar de dores e amores
sábado, 25 de outubro de 2008
De repente

Desejei envolvê-lo num enlace
Tão logo o vi
Tão juvenil ele era
Que senti vontade de uma serenata debaixo da janela
E inverter os papéis
E mandar-lhe flores
E dizer-lhe que ao meu lado não sentiria mais dores
E não choraria pelos falsos amores
Tão belo e comum ele era
Que chegou a me espantar
E de tão repentino foi tudo
Que eu me pus a duvidar
Tudo que chega correndo
Logo logo se vai
Tudo que vem sem ser sereno
Leva tudo e não volta atrás
Mas tão belo ele é
Que a dúvida já passou
E eu me perco no olho dele
Olho mais encantador
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