sábado, 10 de janeiro de 2009

Pasárgada existe



Ruas de sossego
Mar de calma
Ar de serenidade
Bem-estar da minh’alma

A paz tão sonhada
A inocência re-adquirida
O coração aos pulos
É grito, é silêncio, é sussuro

É cheiro de mar
É cheiro de jasmim
É cheiro de coisa boa
Traz saudades sem ter fim

O que sempre me pergunto
É até quando vou viver
Com dor no estômago pela volta
Com vontade de aquele lugar pertencer

O que sempre me questiono
Como surgiu essa paixão
O amor pelas ruas tortuosas
O sentimento de eterna sofreguidão

O que fico a pensar é o porquê dessa revolta
Que nunca me acompanha nas idas
Mas sempre me perturba nas voltas

Eu poderia falar das dunas
Do multi-cor do fim de tarde
Do céu estrelado sem ter fim
Mas tudo é pouco diante da grandeza da cidade

Pode ser pequena em espaço físico
Alguns detestam a pasmaceira
Eu fico com a calma e o sossego
A correria só me traz canseira

Podia falar ou versar para sempre
Fazer odes, compor uma grande canção
Mas minha paz do fim de tarde por lá
Fala muito mais ao coração

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Sem reclames e lamentos

Não vou reclamar
Disseram-me que nada é insubstituível
Que não há porque chorar



Nem vou me queixar
Disseram-me que a vida é assim mesmo
Não adianta espernear



Nem vou dizer adeus
Cada um para o seu lado
Talvez assim queira Deus



Não vou nada te cobrar
É culpa do destino
Que inventou de desviar



Não vou me lamentar
Nada é para sempre
Não tem como disto duvidar



A saudade sempre fica
Faça dela sua aliada
Nem adianta puxar briga



Ontem era e hoje não
Não faça tempestade
Não machuque o coração



Nem amizades são pra sempre
Nada eternamente dura
Engole esse gosto amargo
E vê se a barra segura



Nada é infinito
Nem os mais singelos sentimentos
Não adianta cara de choro
Tampouco teus loucos lamentos



Não adianta fazer promessas
Nada vais mudar
A vida corre depressa
E por você não vai esperar


Não adianta querer reviver o passado
É só por o dedo na ferida
Não mexa no que foi enterrado
Assim a dor é mais sofrida



Siga sem olhar pra trás
Olhe sempre adiante
O ontem não volta mais



Não é só questão de querer
Há coisas com que não se pode
Não se pode é parar de viver

sábado, 3 de janeiro de 2009

Feliz ano novo

Eu não quero falar de um ano novo que seja novo só no nome
Quanta gente pula ondas, come lentilhas, estoura champanhe, faz lista do que vai fazer
Passado o dia 1° neguinho não lembra de mais nada. Só da azia e ressaca braba causados pelo excesso da noite anterior.

Há tempos que venho desejando a mesma mudança: enterrar o que não presta, regar e esperar nascer algo de valioso, que dure através do anos, que não me cause a velha e longa sensação de que a vida precisa ser mudada, girada de ponta cabeça.

O meu desejo de ano novo é o que sempre tenho desejado: tranquilidade pra cabeça, serenidade pro coração, estabilidade pro estômago (eita azia que não me deixa em paz). Quero também mar e sol, cerveja gelada e futebol. Quero amigos por perto e que meus planos de carreira dêem certo. E isso todo mundo quer.


Que o ano de todos os visitantes do lugar de leveza seja muito mais que bom!

=]

sábado, 20 de dezembro de 2008

A mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo

Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo .

A primeira vez que ouvi isso em algum lugar achei fantástico.

Simples e objetivo. Pelo menos falar é.

Fazer, hum, tão complicado!!!

Manter a mente quieta é tarefa das mais complicadas, ela ta sempre matutando idéias, fazendo planos, se frustrando, se alegrando, estressada, calma, irritada, suave, uma bomba.

Cheia de contradições, medos, angústias, desejos... ah... quantos desejos infinitos e eternos, volúveis e inconstantes.

A espinha ereta. A minha é uma piada, quase sempre curvada, arrastada, mal posicionada. Preguiça? Apatia? Cansaço? Moleza? Não, não. Experimente levar uns 13 quilos de livros nas costas durante mais ou menos 7 anos.

Escola cruel a minha. Sem armários, sem livros leves. Livros que pareciam querer imitar a bíblia sagrada. Em vez de catequizar faziam imbecilizar, mas isso é assunto pra outro dia.

Coração tranqüilo. Me digam como é possível , após acrescentar Mário Quintana, pitadas de Drummond e Vinícius e rechear com Jobim. Impossível.

Coração adolescente? Não. Esperançoso? Sim.

Daqueles que crêem em alma gêmea, cavalo branco e príncipe encantado? Não, não.

Desses aí não. O meu prefere um amor hippie. Sem frescuras. Pessoas politicamente corretas, engravatadas e prendadas não fazem meu estilo.

Pessoas sensíveis fazem meu estilo. Hum, mas anda tão difícil.

Por isso e muito mais que digo que manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo é tarefa das mais difíceis.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Acaba

Acaba

Olha só, lá estava eu, maldizendo-me da sorte, queixando-me dos achaques do coração, rogando contra os céus, espraguejando, chorando feito Madalena arrependida, jogada na vala dos esquecidos, perdida no beco dos desconsolados, chorando miséria, brigando com o mundo, fingindo desdém, catando vintém, maltratando até neném.

Olha só, lá estava eu odiando você, rasgando os versos, cutucando a ferida, fingindo não encontrar saída. Olha só, lá estava eu diante da porta sem ver a passagem, pensando ser vertigem ou viagem ou miragem aquilo que era verdade. Olha só eu ali, verde, verde, principiante, iniciante, cheia de uma intensidade ultrajante, delirante, lancinante. Extremista até não poder mais, achando que o sofrimento só tinha o que crescer, retroceder jamais.

Olha só, lá estava eu contando os dias, meses e anos, olhando a lua cheia, querendo tocar piano, tomando um scotch e dizendo “tomara que ele volte”. Olha só quanta confusão, eu lá achando que era pra sempre, que nunca ia acabar. Olha só eu lá, me vejo pedindo pro sentimento não acabar, orando pra sobrar uma nesga, um resquício, um rascunho, um tiquinho, um rabisco que fosse, pelo menos uma letra, um “A” do amo.

Ligeiramente vejo-me lá, e hoje consciente e não tanto displicente ou imprudente. Nem tanto adolescente, nem combalida por desejos frementes. Hoje vejo e constato a mais pura e mais simples verdade, a mais pueril e brejeira, a verdade primeira, incontestável e insofismável: acaba.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Nó desfeito

Não existe nó
Que um dia não se desfaça
é só deixar o tempo escorrer
E uma ponta pela outra passa

Não precisam-se de tesouras
Muito menos de facas
deixe a vida seu trabalho fazer
Que o nó desentrelaça

As partes saem intactas
Prontas pra se unirem em novos laços
Mas é preciso calma e técnica
Pra de novo não perder o compasso

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Começou assim...




As aspas já não me serviam mais
Nem que fossem as de Neruda
Era preciso “algo meu no mundo”
Não, acho que não passa por aí
Tinha muitos outros “algos” meus por aí

Tinham as experiências na cozinha
Tinha meu jeito único de descascar abacaxis
Meu jeito único de fazer cafuné
Tinha meu delicioso pudim de leite

Então o que faltava?
Boa pergunta. O que leva um sujeito a escrever tanto? O que leva um sujeito a perder tanto tempo em busca de versos perfeitos, da crônica irônica, do conto que foi parecendo que não ia e acabou indo? O que leva um sujeito a querer rimar lé com limão, a preferir uma página em branco a ver televisão?

Não, também não passa pela idéia do livro, do filho e da árvore. Meus escritos não ficarão para a posteridade, não serão best-sellers, nem perpetuaram minha espécie, quem dirá meu ponto de vista? Não quero vender minhas idéias, não me parecem suficientemente atraentes para serem vendidas.


Simples: escrito nenhum me bastava.

Escrevo porque cansei de me colocar entre aspas, me cansei do discurso colchinha de retalhos, pegando trechos de Drummond e Quintana, de Machado e Amado.

Cansei-me de ver aspas de falsos escritores tilintando nas minhas vistas. Fazendo troça de mim. Se eles vendem baboseiras porque não escrever as minhas próprias?

Cansei de ser a voz dos outros. Cansei de endossar, assinar embaixo, de fazer das palavras alheias as minhas próprias, cansei de plágio, de responder perguntas com frases dos outros sem ter que gastar um segundo e ter que pensar.

Foi isso. Simples assim, um dia resolvi pensar, comecei a escrever e nunca mais parei.

sábado, 15 de novembro de 2008

Não reclames






Chacoalhou bem
Pediu pra o coração bater pausadamente
Quase lhe implorou pra que fosse menos buliçoso
Mais sereno
Mais ameno

O coração, acostumado aos grandes reveses
Músculo bem treinado, habituado às tormentas
Às águas turvas e geladas
Argumentou que não dava
Que era cavalo puro sangue, que era coração puro sangue
Com veias pulsantes e batimentos galopantes

Resignou-se então com fé
Pedindo aos céus que desse força ao espírito
Que diferente do coração era frágil e quebradiço
E não agüentava tanto bulício

Um dia mais tarde admirou-se
Sentiu o coração calmo
Batendo compassadamente
E assustou-se

Viu-o saborear com sapiência o gosto de cada instante
Sem movimentos lancinantes
Viu-o tocar não como samba, mas como bossa nova
Viu-o como prosa e não como poesia
Viu-o como sempre pedira


Sentiu-se feliz
Rodopiante
Sem o lamento de entregar-se com fervor a cada novo amante
Vivia um passo após o outro
Sem espasmos de euforia
Sem lagrimas de sofrimento alternadas por enchurradas de alegria

Mas logo logo novamente admirou-se
Logo da calmaria cansou-se
Sentiu falta do coração buliçoso
Começou a encher-se de tanto sentimento insosso


Implorou a volta do coração puro sangue
Que aquele pangaré não dava mais pé
Sentia falta dos galopes
Rogou aos céus com toda sua fé

O coração então atendeu as preces
Mas disse logo em seguida
Não reclames mais da sorte
Sou o que tens de melhor na vida