
Nós seres humanos nos deixamos enfeitiçar mais pelos sentidos do que pela razão. Mente quem diz o contrario. Tá, caras inteligentes sempre foram o meu gênero, mas o Caio fazia todas as minhas teorias e pretensa maturidade caírem por terra. Era ver ele que tudo se desmanchava, escorria pela mão que nem farinha.
Eu tinha 18 então, prestes a entrar na faculdade, ele tinha 16. Era o que minha mãe dizia. Ele tinha mudado há pouco e as nossas mães já eram amigas. A minha vivia dizendo que eu devia ir até lá conversar com o Caio, mas eu relutava. Numero 1: ele era mais pirralho que eu. Numero 2: menos inteligente que eu. Numero 3: eu namorava o Gui.
Guilherme Soares de Paiva e Melo. Estudante de Direito, 25 anos, quase formado, de emprego arranjado, culto, gostosinho. O tipo de cara que todas as mães desejam pra genro, meu namorado há três anos. Sintonia, mas o namoro tava assim, assim chocho, murcho. Caminhando por caminhar. Mas eu como boa menina que se preze, mantinha tudo até onde desse, achava que era apenas fase, passaria, afinal não se pode exigir paixão e tesão 24 horas por dia, 30 dias por mês, 365 dias por ano. Na verdade acho que não queria dar o braço a torcer, não queria admitir que eu achava o namorado perfeito, cobiçado por todas
minhas amigas, um pé no saco...
E assim eu continuei escasquetada com o Caio, observando de longe. Dia desses o ápice do meu dia modorrento de férias foi ver ele de sunga tentando quebrar o recorde pessoal de natação. Só podia ser isso, ele nadava feito louco pra lá e pra cá, consultando o relógio, esmurrando a água, dizendo palavrão. Fiquei uma boa meia hora nesta brincadeira. Até que ele pegou a toalha se enxugou e foi pra dentro de casa.
Na noite do mesmo dia estava eu largada tipo mendiga em casa, roupa furada, despenteada a lá leãozinho quando a campainha toca. Era Caio, sua mãe e o pai. Ora, adivinhem, mamãe convidara os novos vizinhos pra jantar e nem avisara. E eu vendo Caio com o riso estampado no rosto, imaginava se aquilo era um sorriso de cumprimento ou de deboche pelos meus trajes e cabelo. Ow mãezinha querida...
[Continua]



