segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Paixão de primeira.






Se me dissessem há 15 anos atrás que eu beberia de sexta até domingo por causa de um time de futebol, eu não acreditaria. Pra começar há quinze anos atrás eu tinha 9 anos e não dava a mínima pra futebol. O motivo de tanta comemoração? Após 16 anos, o meu glorioso alvinegro de Porangabuçu, Ceará Sporting Club, não participava da divisão de elite do futebol brasileiro. Voltamos pra onde nunca deveríamos ter saído.

A minha paixão começou em uma final de Copa do Brasil, ano de 1994. Grêmio x Ceará no Estádio Olímpico. A minha capital alencarina vestiu-se de preto e branco para a conquista que seria a mais importante da historia do Ceará Sporting Club.

O time perdeu com ajudinhas escusas de um certo Godoi e eu, que vi rostos antes eufóricos se converterem em expressões frustradas, resolvi abraçar as cores do mais querido, o alvinegro famoso de Porangabuçu.

Passei a freqüentar estádio, experimentei a sensação de ser tetra, vibrei com varis vitorias, até ficar sem voz, vi alcançarmos a hegemonia do futebol cearense, mas também vi campanhas sofríveis, dirigentes irresponsáveis e corruptos jogarem nosso clube em situação vexatória.

Amei o preto e o branco com mais força em tais situações. Rumo ao Plácido Aderaldo Castelo ou ao Presidente Vargas, às vezes enrolada em uma bandeira alvinegra, outras trajando apenas o manto, sempre carregava comigo o orgulho de ser Ceará Sporting Club, orgulho de quem nasceu com a vocação pra grandeza, não importando os percalços ou humilhações. Torcida fiel, vibrante, na alegria e na tristeza, na campanha irretocável e na campanha vergonhosa.

Diz o nosso hino que a nossa glória é lutar. E nada poderia traduzir melhor o sentimento e a paixão alvinegra. Nesta Série B sofremos com mais roubos deslavados, gol de mão, lutamos contra doenças de atletas, catapora do Mota e do Rômulo, experimentamos a lanterna da competição e tivemos que contar com o descrédito da imprensa e a inveja de adversários

Havia, porém um homem de fibra, chamado Evandro Leitão, presidente torcedor, que saiu da arquibancada para reestruturar o Ceará. Ao lado dele os incansáveis André Figueiredo, o competente Jurandir Junior. Em campo: Lopes, Adilson, Bonan, Erivelton, Fabricio, Anderson, Fabio Vidal, Boiadeiro, Jorge Henrique, Careca, Heleno, Michel, João Marcos, Geraldo, Mota, Wellington Amorim, Romulo, Sergio Alves, Misael, Preto, Reinaldo, Luisinho. Na borda de campo, o comandante Pc Gusmão.

O Ceará volta a série A após 16 anos. Volta em grande estilo. Enchendo a nação alvinegra de orgulho e euforia. Lágrimas por todos os lados, gritos, lotação no aeroporto na espera dos heróis, carreata gigante, amor em preto e branco. Bandeiras, fogos, hino, musica, emoção. 100 mil pessoas, 200 mil dizem uns. Festa digna de quem é grande por natureza. Ceará Sporting Club.
Obrigada a todos os guerreiros que tornaram este momento possível. Obrigada gandaia alvinegra por ser a torcida mais apaixonada, mais fiel e mais linda deste estado.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

O nosso jasmineiro.

Eis que ressurge o jasmineiro. Aquele que ainda não plantamos. Eis que ressurgem os nossos planos: a casa avarandada da praia, o vinho, um reggae, uma vida mochileira por aí.

Eis que ressurge meu olho no teu, teus conselhos, teu cuidado, tua entrega.

Eis que ressurge você em minha cama, teu cheiro no meu travesseiro, tuas ligações noturnas, nosso amor leve e sem amarras, mas unido como poucos o são.

Eis que ressurge a vontade de que dure ad infinitum, de que seja simples e justo, verdadeiro, voluptuoso e sereno.

O jasmineiro, aquele de flores róseas que ficamos de plantar a quatro mãos no corredor de nossa casa, já vive: na minha mente e no meu coração.

p.s: te amo amor.

domingo, 18 de outubro de 2009

Domingo de manhã



A luz entrou sorrateiramente pelas frestas da janela que se esqueceste de fechar por inteiro. Meu sono leve incomodou-se e fez-me despertar. Às cinco da manhã de domingo ninguém merece tal desassossego. Por um instante de pensamento maquiavélico pensei em te acordar com o Highway to Hell do Ac/Dc. Foi só um instante, juro.

Olhei pro jasmineiro rosa do corredor da nossa casa. Aquele que plantamos a quatro mãos. Olhei pros teus olhos que eu amo: fechados, serenos. Olhos que são a paz das minhas horas incertas e a convicção aumentada das minhas horas mais certas. Olhei compassadamente os músculos do teu abdômen no trabalho pacato de inspiração e expiração. Jeitinho certo de respirar, que somente tu foste capaz de me ensinar. Correr foi bem mais fácil e eficiente depois de tudo isso.

Olhei pra folhinha do calendário marcando nosso aniversario de casamento. O da cozinha também exibe o dia 27 circulado em vermelho. E o do escritório marcado feito um X. Impossível que você seja capaz de esquecer tal e qual os cinco anos anteriores. Eu fui contraria. Lembrar assim não tem graça, mas você insistiu: “Não esqueci por querer, tenho memória fraca”. Queria que a memória fosse fraca na hora de esquecer-se das festas xaropes que você sempre me leva. Djs, “balas” e outros acessórios alucinógenos.

Olhei pro chão do quarto e lá estava teu calção jogado, tão difícil tirar e guardar na cômoda, pendurar na cadeira. O chão é sempre mais prático. Também nem me irrito, depois é você quem vai ficar catando peças pelo chão da casa e reclamando que a coluna já começa a doer, que vai ter que ir ao ortopedista, diminuir a intensidade dos exercícios “Pulley Costas”.

Olhei pro despertador e vi que de tanto olhar já se aproximava das 06h05min. Faltava 1 minuto pro relógio tocar, você acordar, tomar banho, engolir o café que eu ainda não fiz, me beijar e ir trabalhar. Em pleno domingo. Ninguém merece mesmo.

Triiiiiiiiiiim

- Bom dia amor, já fez o café?

domingo, 4 de outubro de 2009

Clássico-rei





É clássico-rei. Ainda me lembro do primeiro que vivi. Tinha então 11 anos. Final de campeonato cearense. Ceará e Fortaleza. Disseram-me que em matéria de clássico o melhor era não acreditar em favoritos, tal e qual o celebre, o futebol é uma caixinha de surpresa.
E eu bem lembro, ouvido pregado no radio, morta de vontade de estar no estádio pela primeira vez. Era perigoso diziam, clássico sempre dá confusão. Não é lugar de criança.
Lembro da impaciência infantil, unhas roídas até sangrar. Bola vai, bola vem. Aprendi que clássico é jogo diferenciado, jogador com fome de bola, narrador com o coração na ponta das cordas vocais. Venci, vencemos. Primeiro clássico-rei da minha vida. Ceará campeão do primeiro turno do cearense de 1996.

De lá para cá foram vários. Às vezes estávamos por cima, às vezes por baixo. Passei a ir ao estádio depois de muito implorar a mamãe e a meu tio, que é quem aceitou a missão de me levar aos campos de jogo: Castelão e Presidente Vargas.
Vi o nosso tetra-campeonato, vi títulos do lado de lá. Vi brigas várias, torcedores no chão, espancados, socos, tiros de borracha. Vi o espetáculo das torcidas, os cânticos, os gritos, as comemorações. Vi craques surgirem, vi a eleição de bodes expiatórios, jogadores que seriam marcados até o fim com a pecha de ruins. Vi ídolos, carrascos, baixinhos bons de bola, vi paredões, santos, guerreiros, matadores, pit bulls... Vi tanta coisa e ainda há tanto pra ver.

E até hoje é assim. Há tempos não sentia um frio na barriga tão grande na espera de um clássico. Ê 21 horas que não chegavam nunca. Tempo arrastado, as bandeiras e musicas tilintando ao longe e o relógio empacado. Todos ansiosos, esperando um resultado que sacramentasse o caminho de cada um: tricolores querendo escapar da degola, nós alvinegros, tentando ir avante e para o alto...
Só um pesar nisso tudo: em clássico não ando mais. Não tenho mais a disposição dos tempos de menina, já não dou conta de correr de pedradas e tiro de borracha. Já não acho aquilo aventura e a propósito, não há belo gol ou craque que valha a pena tamanho risco.
E sim, me dói tal constatação, antes de todo clássico-rei vem-me a mente os áureos tempos em que ia ao Castelão torcer pelo Vozão. De pé no meio da multidão, estádio tremendo, coração na mão. Vez por outra eu fecho os olhos e ouço os gritos. É gol.

E a propósito: no de ontem vencemos. Ceará 1x 0 Fortaleza . Ceará avante e para o alto...

domingo, 27 de setembro de 2009

Pequeno diálogo inútil nº 2

- Você não liga pra mim

- Não é verdade

- É sim, vai viajar nas férias sem mim, nem pra me convidar

- Tu não viajaste sem mim?

- A trabalho, você sabe.

- Vai bem dizer que não deu um pulinho nas baladas da Vila Olímpia? Me engana que eu gosto.

- Não fui uma única vez.

- Não mente que é feio.

- Não desvia, você não liga pra mim.

- Que coisa ahn. Você não tinha um cliente às 3h da tarde? Já são duas 2h e 50m

- Tá vendo? Quer se livrar de mim.

- Só to pensando no nosso futuro. Vai trabalhar pra pagar a viagem do reveillon que é melhor

- Pra onde vamos?

- Não sei. Praiazinha. Jeri? Flexeiras? Mundaú? Quem sabe Natal?

- Ow amor, pensei que não quisesse mais viajar comigo.

- Pára de drama homem, até parece a mulher da relação.

- Como você é sutil meu bem...

domingo, 20 de setembro de 2009

O resultado.




Ele entrou de sopetão, aos gritos:

- Passei, passei.

- Tá louco pirralho?

- Larga de ser nojenta uma vez Bel. Eu passei. Passei no vestibular.

Aquilo pra mim não era surpresa. O Caio era inteligente. Em todas as aulas que tivemos, ele me surpreendia. Era melhor aluno que eu. Disciplinado, mas não bitolado. Reservava sempre tempo para fazermos coisas inúteis como ver filme, comer pipoca, navegar na net ou simplesmente conversar besteira. Eu estava orgulhosa. Tinha contribuído com aquele momento de êxtase.

- Obrigada, obrigada por tudo.

Ele me agarrou, me levantou, me girou no ar, me colocou de volta no chão, olhou no fundo dos olhos e me beijou. Tudo isso antes que eu pudesse reclamar ou contestar. Durou menos de um minuto até nossos lábios se encontrarem. Demorou uma eternidade pra se afastarem.

Eu queria aquele beijo há tempos. Ele sabia. Castigava-me fazendo esperar por aquele momento. Certamente pensava que eu acabaria pedindo ou cantando ele. Nunca, fiquei na minha, esperando, a moda antiga como eu sou e admito.

Acabamos no chão. O quarto era em cima, escadas e aquele alvoroço todo não seria uma boa combinação. Transamos no chão da sala, numa tarde de quarta, as três da tarde, porta entreaberta. Ele parecia querer-me desde o inicio dos tempos, tamanha era a vontade com a qual me abraçava, cheirava, roçava a tentativa de barba em meus seios. Parecia querer morar em mim, numa simbiose inacabável, que se arrastasse ao longo do tempo.

Só quando tudo havia terminado é que eu havia percebido o absurdo da situação. A porta totalmente aberta. Se mamãe chegasse, se o Gui chegasse, eu tava perdida.

O pensamento não durou um segundo. Ele me trouxe de volta:

- Bel, queria que você soubesse que eu to apaixonado. E adorei hoje.
- Eu também Caio, adorei.

Só o que me incomodava era o fato de saber que eu não deixaria o Gui, porque eu não deixaria.

Continua...

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Na espera.

Este poema é a prova viva da vontade frustrada, do desejo rolando escada abaixo. A encarnação do que deveria ter sido e não foi. Eu esperava um feriado reparador e veio um... deixa pra lá. Ficou o poema, a leveza e esperança do poema.

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Amor,
Prepare-se
Amarre a rede
Em breve a sede desaparecerá


Amor,
Aguarde
Tenha fe e paciência
Um pouco de persistência também ajudará


Amor, relaxe
Não fique bravo
Nem faça alarde


Amor, sossegue
Não se irrite
Não me maltrate


Amor
Tudo culpa do cansaço
Apertou o nó, fechou o laço


Amor vem brisa
Da praia, do mato
O melhor da vida



Amor vem mar
Duna e espuma
Noite de luar


Amor vem marcha
Tambor e independência
Mas o melhor de tudo
É o sufocar da ausência

Amor,
já que chega
Pra matar essa saudade
Acabar essa tristeza

sábado, 15 de agosto de 2009

Termodinâmica.




- De que maneira pode ser enunciado o 2º principio da termodinâmica?

-...

- Caio, ta me ouvindo?

- Han, quê?

- Olha moleque, se for pra me zoar eu tenho mais o que fazer.

- Não to te zoando. Quando uma parte de um sistema fechado interage com outra parte, a energia tende a dividir- se por igual até que o sistema alcance o equilíbrio térmico.

- Ótimo, agora resolve as questões.

- Só isso?

- Só isso o que? Você quer que eu resolva por você. Resolva e se tiver duvidas me chame.

É, mamãe disse: " Se você quiser a Bel pode te ajudar com o vestibular Caio". E eu estava ali agora, sábado à tarde enfiada no caldeirão da termodinâmica.

- Você fica linda concentrada.

- Que?

-Você fica linda concentrada, seria, bravinha. Mas só uma vez eu gostaria de te ver sorrindo.

- Tá me cantando pivete?

- Não estou te cantando. Elogiar é permitido no seu reino de ditadura, princesa?

- Se é reino, deveria me chamar de rainha.

- Já te disseram que você é pretensiosa e pedante?

- Varias vezes. O Gui, meu namorado diz sempre.

- Namora há quanto tempo?

- Há mais tempo do que você parou de jogar vídeo-game.

- Há um dia então. Foi quando parei de jogar vídeo-game.

- Já te disseram que você é retardado.

- É o que minha ex dizia. (risos)

- É, não costumo errar nos meus conceitos.

- Só quando pensou que eu era um pitt boy marrentinho.

- Como sabe disso?

- E ainda confessa na minha cara. Não é muito inteligente fazer pré-julgamentos. Mas lhe perdôo, pois pensei que você fosse uma patricinha metida. Tiro a parte da patricinha, mas quanto a ser metida, não posso dizer o mesmo.

- Digo mesmo, não é Pitt boy, mas marrentinho, imaturo, infantil.

- E o que faz aqui perdendo tempo com um infante?

- Sei o que é vestibular, queria ter alguém que pudesse ter me ajudado, excetuando professores.

- E o Gui?

- Perdido demais entre processos, tribunais, julgamentos...

- Sei.

- Pára de conversa fiada e volta pra termodinâmica.

- Não. Vamo assistir tevê e comer pipoca.

- Mal começou a estudar e já quer parar. Desse jeito não passe nem na primeira fase.

- To estudando desde 8 da manhã. São quatro da tarde, meu cérebro ta fervendo no caldeirão da termodinâmica. E agora vou relaxar. Ou melhor, nós vamos. Ah, desculpa, acho que a rainha nervosinha não sabe o que é isso.

- Atrevido.

[ Continua]